A analogia entre o mundo do futebol e a gestão da mudança pode nos ajudar a melhor compreender as diferentes etapas e dificuldades relacionadas a esse processo. A pressão por resultados imediatos; a falta de convicção no caminho a seguir; o pouco tempo para treinar um novo esquema de jogo; a dimensão inadequada do nível de competências dos jogadores, treinador e diretoria e a falta de suporte e recursos para sustentar a mudança são apenas alguns exemplos de situações em que, tanto as organizações como os times de futebol se deparam em seu dia-a-dia.

Assim como no futebol, as histórias passadas de sucesso, títulos conquistados e a tradição da camisa do clube não garantem e, tampouco, são a certeza de que novas conquistas estão a caminho!

Ao observar diferentes e variados processos de mudança, visualiza-se que muitos deles surgem e derivam de momentos de colapso. Muitos times de futebol optam pela troca do treinador, pela mudança de jogadores e/ou pela mudança do esquema de jogo somente quando as derrotas já se acumulam ou quando se encontram muito próximos de uma “zona de rebaixamento”.

A pergunta a ser feita é: Estamos convictos de que já chegamos ao final de um ciclo e, assim, um novo processo de mudança se torna mandatário ou ainda precisamos de um tempo maior para melhor treinar e compreender o esquema de jogo vigente? Como saber a resposta?

A avaliação da evolução do “padrão de jogo” e a consistência dos resultados jogo a jogo (independente da vitória ou derrota) possa ser uma resposta. Se, passado algum tempo, o padrão de jogo não é mais percebido ou não traz mais a segurança de que algo melhor está por vir, quem sabe a mudança já se faça necessária.

Se, em sua avaliação, a hora de mudar chegou, ainda é preciso analisar se um dos remédios, tradicionalmente utilizado pelos clubes e pelas organizações, ou seja, a troca imediata do treinador, será suficiente para a busca de outro nível de resultados. Com certeza, a troca do “comandante” traz consigo uma nova motivação aos funcionários ou jogadores por uma suposta “esperança” na retomada de dias melhores. A questão é que essa ação isolada não irá garantir melhores resultados, exceto que venha acompanhada de outras medidas tão ou mais importantes.

Esta situação se assemelha (e muito) ao momento em que as organizações decidem pela promoção interna ou a contratação de uma nova liderança e depositamos nela toda a expectativa e pressão por diferentes e melhores resultados. Resultados imediatos, ou no curto prazo, serão muito complicados de serem alcançados e poderão gerar, se não corretamente administrados, uma nova troca ou substituição.

Porem, se estamos seguros e tomamos a decisão por mudar, não é mais hora de ficarmos olhando para trás. Precisamos ter a convicção em relação ao que deve ser feito e seguir adiante na administração dos impactos no dia-a-dia da organização. As etapas e preocupações citadas anteriormente já fazem parte do passado!

Os diferentes níveis e fases de resistência dos jogadores à mudança; o papel da liderança/técnico na gestão do processo; a necessidade da criação de um ambiente/vestiário de confiança que permita o erro como forma de aprendizado; o importante papel da comunicação para que todos os jogadores possam compreender e aplicar os novos conceitos; a transformação desses conceitos em novos comportamentos; a necessidade de mudança nas rotinas e rituais do dia-a-dia do time, bem como, a criação de sistemas e processos robustos que sustentem a mudança são apenas alguns exemplos de itens a serem observados a partir de agora. Todos são fatores que devem ser gerenciados para garantir o sucesso e o alcance dos resultados almejados.

Quem sabe em nossas organizações e times do coração devêssemos entender melhor que se treinamos e criamos um ambiente para: 1 – aumentar a confiança entre os jogadores, 2 – aprimorar as deficiências individuais e coletivas, 3 – explorar as potencialidades de cada jogador, 4 – lapidar os talentos, 5 – implementar diferentes esquemas e táticas a serem utilizadas no decorrer de cada partida, existirá uma grande chance de que algo novo possa aparecer ao longo das partidas oficiais. Caso contrário, teremos sempre que contar com a sorte, com o despreparo e/ou infelicidade do adversário ou com o talento individual de alguns de nossos jogadores.

A rápida exigência por resultados extraordinários e o pouco tempo para preparar e treinar os jogadores, somada à falta de convicção da direção e dos técnicos do time, além da falta de observação das forças propulsoras e restritivas da cultura/tradição da organização/clube, não criam as condições para que se possa mitigar ou eliminar os riscos inerentes a todo e qualquer processo de gestão de mudanças, seja no futebol ou no meio organizacional.

As organizações que não criarem ambientes de confiança e oportunizarem espaços para treinar, não permitirão aos seus jogadores momentos para que possam tanto errar como desenvolver novas aptidões e habilidades individuais e/ou coletivas. Deixar tudo isso para a hora do jogo é um grande risco!

Sempre que existir um mudança no esquema de jogo e os jogadores são, em sua maioria, os mesmos eles terão, naturalmente, uma dificuldade inicial de tomar decisões diferentes das antigas, mesmo que existam um novo cenário e um novo contexto de suporte para isso.

Esta é uma das principais dificuldades, pois apesar de termos a clareza pela mudança e os desdobramentos necessários para cada jogador, existe em uma fase inicial a tendência de se continuar tomando decisões com o mindset do modelo anterior. Mais uma vez, se reforça com isso a importância da hora de treinar, pois será o momento em que cada jogador poderá chutar em diferentes direções ou até mesmo a canela de seus companheiros… Obviamente, existe um tempo a ser determinado para que todos possam realizar esta mudança de mindset. Caso contrário, outras ações ou intervenções serão requeridas para o bem do grupo.

O novo esquema tático de jogo precisa não apenas ser entendido, mas incorporado por todos (da direção aos jogadores, passando por toda a estrutura de suporte do clube).

No linguajar do futebol se diz que “treino é treino e jogo é jogo”. Se levarmos esta máxima para as mudanças organizacionais minha sugestão seria de grifar a importância da hora de jogar e da hora de treinar, porém sem diminuir a importância da segunda para o resultado final.

Os resultados da mudança não deveriam ser avaliados e exigidos em um primeiro momento apenas pela conquista, ou não, dos três pontos de cada jogo, mas principalmente pela evolução técnica e tática do time, o surgimento de um novo padrão de jogo que permita potencializar novos talentos e inovações (jogadas) ao longo das partidas.

Se, mesmo com tudo isso, os resultados demorarem a surgir, ficará sempre a dúvida se o momento requer uma nova intervenção, seja esta incremental ou de ruptura. A resposta dependerá da correta seleção de um grupo de indicadores que serão definidos para o acompanhamento e validação da evolução da mudança no curto, médio e longo prazo. Se isso não for bem definido e não existir uma convicção e suporte da alta administração, provavelmente, um nova troca de técnicos poderá ocorrer sem necessidade.

Enfim, ao acompanhar a dinâmica do futebol; a falta de convicção em relação às mudanças que se fazem necessárias e as inúmeras decisões motivadas, fortemente, pela emoção e pelo despreparo de alguns dirigentes, se torna inevitável a analogia com o mundo organizacional. Por outro lado, mesmo com todas essas dificuldades e percalços, é no futebol que se encontram as torcidas mais fanáticas e apaixonadas pelos seus respectivos clubes. Talvez esteja aí uma grande oportunidade para os dois lados.

O aproveitamento do que existe de melhor em cada um destes dois mundos, permitiria aumentar a profissionalização e competitividade de nossos clubes do coração, assim como, ajudaria as organizações a identificarem como aumentar o engajamento e, por que não dizer, a paixão de seus funcionários pela empresa.

 

 

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